domingo, 20 de julho de 2014

SOS Gaza

"Na luta do bem contra o mal, é sempre o povo que morre." (Eduardo Galeano)

É chocante mas é a dura realidade mundial.

A segunda noite desde que começou a invasão terrestre de Gaza teve 26 palestinos mortos e quatro soldados israelenses feridos, um deles em um acidente rodoviário. O Exército de Israel matou 330 palestinos desde o começo da Operação Limite Protetor na Faixa de Gaza, na madrugada de 8 de julho. 72 deles eram crianças ou mulheres menores de 18 anos, segundo a contagem do Ministério da Saúde palestino. Dos quase 3.300 feridos, 657 são crianças. A Organização das Nações Unidas calcula que mais de 75% dos mortos são civis.

O Exército israelense anunciou nesta tarde a morte de dois soldados vítimas de uma incursão de milicianos do Hamas, que haviam se infiltrado em território israelense pela rede de túneis que fazem ligação com Gaza. Em um comunicado, o Exército informou que se trata do sargento Adar Bersano, de 20 anos, e do oficial Amotz Greenberg, de 45. Com estas mortes chegam a quatro as baixas israelenses. Nesta semana já haviam morrido outro soldado e um civil. Israel investiga se este último foi vítima do chamado fogo amigo.

As primeiras horas da noite de estiveram entre as piores de toda a ofensiva, com dezenas de palestinos mortos.Durante a noite, as tropas israelenses mantiveram as posições que haviam ocupado na sexta-feira dentro do território palestino. No Sul, perto da localidade de Jan Yunis, os soldados e os tanques continuam estacionados a mais de um quilômetro no interior da Faixa de Gaza. No Norte e no Leste mantinham-se, segundo relatos de moradores, cem metros adentro.

Enquanto isso, continuava a se agravar a situação dos deslocados que fugiam dos israelenses, cujas tropas não encontraram resistência. A ONU informou que seus abrigos tinham recebido 40.000 palestinos até a tarde de sexta-feira. A estas cifras é preciso acrescentar os palestinos que se refugiam em casas de familiares ou amigos. Com frequência, famílias como a de Fuad Hanana, que vive no bairro de Zeitun, a menos de dois quilômetros da fronteira com Israel, enviam seus filhos para a casa de parentes que vivem em zonas centrais da Cidade de Gaza.

Os duros bombardeios da sexta-feira acabaram forçando a evacuação total do hospital de Al Wafa, um centro de saúde relacionado com o Hamas, em cujo quarto e último andar Israel diz haver detectado um “centro de operações” do grupo islâmico. Está localizado sobre um pequeno monte, de onde se divisa a fronteira de Israel. Na primeira linha de fogo. Na sexta-feira, sua estrutura mostrava os impactos de artilharia que recebeu nas últimas semanas. As calçadas em torno estão cheias de entulho e vidros quebrados. As ruas destas zonas fronteiriças estão quase completamente vazias.

No sábado, o Exército de Israel acusou o Hamas de utilizar um “burro explosivo” contra seus soldados no Sul da Faixa: “Enviar um animal para a morte para conseguir objetivos terroristas pode parecer chocante”, dizia a nota do Exército. “Mas não é a primeira vez que os palestinos adotam essa tática”.

Era preciso reparar nas duas bandeiras amarelas que ondeavam sobre os alto-falantes para perceber que o discurso inflamado de resistência que troava no sábado em frente ao hospital de Jan Yunis provinha dos palestinos próximos ao Movimento de Libertação Nacional da Palestina, o Al Fatah. Em um tom que poderia muito bem ser confundido com o típico usado pelo grupo islâmico e também palestino Hamas, a voz pedia resposta contra os ataques israelenses e a "libertação da Palestina". As pessoas ali reunidas esperavam nove corpos, vítimas de um só projétil de um drone israelense na noite anterior. O aspecto da multidão, composta em sua maioria por homens bem barbeados e vestidos à europeia, corresponde com o que se espera dos seguidores da Al Fatah, o partido do presidente da Autoridade Palestina, Mahmud Abbas. O cortejo fúnebre levou dois cadáveres amortalhados com bandeiras verdes do Hamas. Os outros sete, envoltos nas cores palestinas, eram da Al Fatah. Enquanto os subiam nos ombros, o alto-falante proclamou: "Uma nação unida, Hamas e Al Fatah". A aspiração continua longe de se cumprir, enquanto Israel castiga Gaza com uma operação militar que já matou mais de 330 palestinos em 12 dias. As mortes de dois soldados neste sábado elevam para quatro as perdas israelenses.

Ambas as organizações palestinas anunciaram em abril um acordo de reconciliação nacional, sete anos depois da repartição feita dos territórios palestinos após uma breve guerra civil. O laico Al Fatah governa, desde então, a Cisjordânia, aonde está a sede da Autoridade Palestina, Ramallah. O islâmico Hamas controla desde 2007 a faixa de Gaza, empobrecida, cercada por Israel e isolada também do Egito, que manteve sua fronteira fechada durante a maior parte destes anos.

Após levarem os mortos até um dos abarrotados cemitérios de Gaza, um homem de 45 anos que se identificou como Abu Ibrahim admitiu com rodeios que é membro da Al Fatah e que, como muitos dos funcionários militantes de sua facção que ficaram em Gaza, recebe mas não trabalha desde a ruptura palestina em 2007. Ainda assim, o engenheiro considera que o presidente Abbas "está fracassando em defender Gaza" das bombas de Israel. "Por que há sete anos não vem para Gaza? Por que não nos apoia?" Disse sentir que "o Hamas é o único que faz algo" para fustigar Israel, com seus foguetes. Os palestinos, disse, "devem defender-se como podem, não há outra opção". Abbas, disse, "deve cancelar toda a colaboração com Israel". A Autoridade Nacional coordena-se com as autoridades de segurança de Israel em diversos aspectos relacionados com a ocupação.

Enquanto mantinham posições muito próximas da fronteira ao norte e leste da faixa de Gaza, os tanques e a artilharia de Israel penetraram mais de um quilômetro dentro do território palestino ao sul. Esses avanços inquietavam o vendedor de sabonetes Wael Garto, de 40 anos, que defendia "as tentativas de Abbas em conseguir um cessar-fogo"com a mediação do Egito. Do alto se escutava os motores de um dos drones israelenses que vigiam dia e noite tudo o que acontece na faixa de Gaza.

Na semana passada, um grupo de manifestantes impediu que o ministro da Saúde do Governo de reconciliação, Jawad Awaad, procedente de Ramallah, visitasse a cidade de Gaza. Protestavam contra a "traição" de Abbas.

O parlamentar palestino e dirigente da Al Fatah em Gaza, Faisal Abu Sala, considera, por outro lado, que o Hamas "buscou a reconciliação para saldar seus problemas de dinheiro". Em frente à sua casa assegurava ontem que "nesta ofensiva, o Hamas e a Al Fatah têm as mesmas metas". Mas acredita que "é prioritária uma negociação para parar este massacre". Abbas, disse, "segue firmemente comprometido com a reconciliação". Mas as bombas de Israel a afastam a cada explosão, que fortalece a reputação do Hamas entre uma população que se sente encarcerada e triturada por um inimigo impune.

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