sexta-feira, 18 de julho de 2014

O adeus de João Ubaldo Ribeiro

Soco duro que traz um gosto amargo, amaríssimo à boca: João Ubaldo morreu na madrugada.
João Ubaldo está morto, sem mais.
Seria igual estar em São Paulo, em Pequim ou em Copenhagen, onde estou?
Seria, mas não é.
A distância aparentemente não existe, mas existe.
Existe apesar de estarmos distantes há anos, tantos que a última vez em que o vi foi na Alemanha, numa estação ferroviária, em 2006, no dia seguinte da morte de outro querido, Bussunda, trauma parecido, embora diferente.

João Ubaldo era presença em nossos jantares nas Copas do Mundo da Espanha, em 1982, na do México, em 1986, e, depois, na dos Estados Unidos.
Sempre monopolizando as conversas com seu vozeirão e verve incomparáveis.
Jamais se fez de rogado e se ouvia uma ideia de que gostasse avisava o interlocutor, sem cerimônia: “Vou usar e não darei a fonte”.
Não me lembro de nenhum caso em que tenha cumprido a promessa que soava feito ameaça, mas se o fez, fez bem, melhor que o autor da ideia.
Certa vez perdi 100 dólares numa burra aposta que fiz com ele sobre uma letra de Cole Porter, que Luis Fernando Verissimo serviu como juiz.
Divertido, cobrou e, diante de minha incredulidade, embolsou, sem mais.
Desembolsaria muito, mas muito mais, se pudesse pagar por um novo encontro com ele.
Para lembrar de tantas conversas impagáveis, ao lado de João Saldanha, Zózimo Barros do Amaral, Verissimo, Ruy Carlos Ostermann, Sérgio Cabral, o pai, Alberto Helena Jr., Sandro Moreyra.
Somos poucos. Poucos ficamos. Ficamos pouco.
O tic tac do relógio é implacável. João Ubaldo estará ausente da página central do jornal O Globo, aos domingos, logo abaixo do Veríssimo. Deixaremos de ler sobre os "botecos" do Leblon, sobre suas críticas ao governo e ao poder, sobre Itaparica(sua eterna ilha), e, principalmente, o seu sorriso, palavra imortalizada em um famoso livro dele(O sorriso do lagarto), deixará o plano terrestre para sempre. 

Aliás, estão ocorrendo muitas mortes de pessoas abaixo dos 75 anos..a medicina não poderia evoluir um pouco mais? porque ficamos mesmo pouco tempo na Terra..Menos de 900 meses por aqui..que o baiano João Ubaldo com Deus.


Quando morrem grandes escritores, sinto no peito a mesma angústia de quando perdi alguns dos meus ídolos na música! O bom é que a obra é eterna!  O Ruim é que desequilibra um pouco a fauna de criadores extraordinários! E nesse mundo onde o ordinário, o superficial e a idiocracia vem vencendo, uma baixa dessas é uma grande perda!

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