terça-feira, 22 de julho de 2014

Drones, as mulas do futuro?

Esses aparelhos podem cruzar com droga a fronteira entre Estados Unidos e México.

Criados no início para as táticas militares e mais recentemente utilizados para tirar fotografias, pela indústria de Hollywood ou da construção, os drones – ou aviões não tripulados – poderiam se converter nas mulas do futuro. Como aeronaves de pequenas dimensões, esses aparelhos têm a capacidade de cruzar, carregando drogas, uma distância similar ou maior que a da fronteira entre Estados Unidos e México, escapando dos controles convencionais (inclusive radares) e sem arriscar vidas no meio do caminho.
"Trata-se de uma prática factível, talvez mais provável para a heroína que para a maconha", afirma o diretor de Segurança do IMCO, Alejandro Hope. "Mas na atualidade, a maior parte da droga continua passando por meios convencionais como veículos, pessoas ou túneis. Ao contrário da lenda criada ao seu redor, o narcotráfico é um negócio low-tech [que requer pouca tecnologia]".
Segundo fontes da Agência Antidrogas norte-americana (DEA) citadas faz alguns dias pelo jornal mexicano El Universal, os cartéis estariam utilizando, desde o começo do ano, trabalhadores de empresas montadoras de drones em território nacional para fabricar aeronaves sob medida para suas necessidades. A Cidade do México, Querétaro, Guadalajara e Nuevo León seriam as entidades onde estariam acontecendo essa prática. Questionada pelo EL PAÍS, a embaixada dos EUA no México apontou que "não faz nenhum comentário sobre nota ou investigação que está em andamento".
Dentro da indústria de fabricação de drones, o pessoal consultado mostra-se resistente a avaliar a possibilidade de que as aeronaves possam chegar a servir de negócio para o crime organizado. O empregado de uma empresa que prefere manter o anonimato assegura que não é viável. "Pela pouca autonomia que têm, uns 500 metros, e o pouco peso que podem carregar", argumenta. Os drones menores, esses que qualquer interessado pode adquirir por 600 dólares, somente suportam o peso de uma câmera ultraleve (entre 200 e 500 gramas).
Roberto Hernández Guerrero, diretor de Arte da revista Instyle e fundador do grupo do Facebook Drones México – o primeiro na comunidade virtual – acredita que poderia terminar sendo um bom negócio para as máfias da droga. "Tudo depende do investimento, mas um drone bem equipado pode chegar a carregar entre 10 e 15 quilos, ter uma autonomia de voo de 15 minutos e percorrer um quilômetro de distância. Esses aparelhos custariam uns 150.000 pesos (25.900 reais)", calcula.
Segundo relatório da Oficina contra a Droga e o Delito da ONU, publicado no final de 2013, um quilo de cocaína que na Colômbia é vendida por 700 dólares, na fronteira norte do México pode alcançar o valor de 12.000 ou 15.000, ao entrar nos EUA passa a 20.000 e se chegar a Nova York ou Seattle é comercializada por 30.000 dólares.
No México, desde 2013, uma única empresa distribui equipamentos de vigilância aérea para forças de segurança públicas. "O fabricante é canadense, os aparelhos pesam 1,65 quilos e podem chegar a voar até 25 minutos, o máximo de tempo já conseguido no mundo", explica Gerardo Castell, o responsável da VAP, com sede na Cidade do México. O preço de um destes drones é de 40.000 dólares, mas seu design - pequeno e leve - está pensado para carregar uma pequena câmera. Parece complicado para Castell encontrar aviões que levem até 10 ou 15 quilos, mas reconhece: "Não há nada impossível".
"Como tal, existem poucas empresas que se dediquem à construção de drones, mas são muitas as montadoras independentes", explica Roberto Hernández. É um mistério a quantidade de pessoas com capacidade para montar um. "No grupo somos 2.100 membros interessados, mas não quer dizer que todos saibam montar um", diz. Ele, por exemplo, é fotógrafo e monta drones em seu tempo livre. "Desde menino voei aeromodelos, sempre me atraiu. São muito úteis para minha profissão".
Na opinião desse jovem de 29 anos, a regulamentação, inexistente no México, é necessária. "Pode ser que termine criando restrições, mas acho que poderá ser benéfica para nós, que usamos para fins lícitos. Qualquer avanço tecnológico, por mais positivo que for, se cair nas mãos inadequadas, pode servir para realizar as piores atividades", conclui.

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