domingo, 4 de maio de 2014

Radicalização e Violência

Tem-se observado no Brasil de 2014 um fenômeno de radicalização e violência preocupante. Raras as manifestações públicas que não terminam com queima de ônibus e de banheiros químicos, ocupação e fechamento de estradas com queima de pneus, e, com frequência, choque com a polícia. 

Estranha explosão de violência num país com democracia consolidada, com liberdade de expressão, organização e manifestação, com imprensa aberta e total liberdade de publicação. Essas explosões de violência começaram na verdade nas manifestações de junho de 2013: um marco positivo de afirmação da sociedade civil de insatisfação com os serviços públicos oferecidos pelo governo. 

A violência naquelas manifestações era, porém, apenas de grupos minoritários no meio da multidão que se manifestava pacificamente. Ademais da insatisfação manifesta nas ruas em meados do ano passado, existe também uma crescente desconfiança da sociedade em relação às instituições e a obstrução dos canais de representação e negociação. Pesquisa realizada em 2013 (IBOPE) mostra que a confiança nas instituições caiu de 58 (numa escala de 1 a 100), em 2009, para 47, em 2013, sendo os Partidos Políticos e o Congresso os que merecem menos confiança da sociedade e a Presidência da República a que sofreu o maior declínio de 2009 a 2013. 

Nada disso pode, contudo, legitimar a violência gratuita dos manifestantes. Aos pensadores sociais brasileiros, cabe um esforço para entender, “no calor da hora”, o que significa isso. Ao poder público, cabe preservar o interesse do bem comum, o que significa punição à altura dos crimes cometidos contra o patrimônio público.

Eis o momento de perceber o resultado da extrema violência da classe dominante brasileira. Os vândalos da escravidão e da sobre exploração do povo, agora diz! e não estamos em uma ampla democracia? e tudo não se faz dentro da forma legal? então penso, e o Amarildo, lembram-se? e o bailarino? e todos os pobres que morrem no belo cotidiano da democracia brasileira. 

Parece que os vândalos são outros, os quais se encontram longe dos palcos da violência, já os que a praticam diretamente são parte de todos os pobres, e o fazem a mandado dos donos de todos os seres e de todos os poderes, e fazem para comerem as migalhas que caem da mesa dos mandantes. E o mais interessante é que os que escreveram este editorial sabem disto melhor do que todos nós. São os teóricos do vandalismo intelectual. Ideologicamente, usam uma parte e analisam o todo, deixando de fora do seu discurso, tudo necessário à compreensão do real.


Já pararam para pensar que beleza para o capitalismo vê os Rolézinhos quebrando e invadindo Shopping Centers para se alimentarem do desejo do consumo?

Isto é o suprassumo do sucesso do Capitalismo Moderno! Multidões ávidas para se integrarem ao consumo.

Nos dias de hoje há mais mistério nesse capitalismo moderno – da sociedade da informação – do que o nosso, hoje pueril, marxismo poderia jamais imaginar. A democracia, duramente consolidada aqui no Brasil, é o único ambiente para mudanças estruturais.

P.S – Se ser vândalo intelectual é desconstruir, de forma sistemática, as velhas igrejas mofadas das ideologias obsoletas; se ser vândalo intelectual é não se achar dono de alguma verdade, mas pelo contrário, filhos de uma inquietante incerteza; se ser sê vândalo intelectual é sair irradiando inquietação e incertezas sobre tudo que faz nossa humanidade, considero isso um forte e imerecido elogio.Sinal de que lestes bem a Dialética.

P.S 2 - O Real é, para sempre, inapreensível, é um furo, um buraco negro no nosso narcisismo intelectual. Tudo que fazemos é caminhar pelas suas bordas, com angústia, as vezes com desamparo outras com desespero.

A democracia que temos de fato é e sempre foi restrita. Ela exclui a maioria dos brasileiros. Liberdade de expressão, por exemplo, é um direito que importa apenas para a minoria que pensa e opina no Brasil. Não significa nada para a maioria que vive um cotidiano factualmente opressivo e violento. 

Nossa violência é endêmica e impregna nossos modos correntes de vida. É tão endêmica que nem a percebemos. O que me espanta é a persistência dessa percepção mítica de um país sempre representado como alegre, feliz e festeiro. Somos também isso, mas tudo isso convive com a violência. Portanto, nada de estranhável. Aliás, acho mesmo é que devemos nos inquietar não só com o que está acontecendo, mas também com o tom dos dois comentários que precedem este meu, que diante deles é sinceramente banal e previsível, vindo de quem vem.

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