quinta-feira, 24 de abril de 2014

Tragédia Suprema Carioca

A revolta extrema pela morte violenta do filho e a aflição para tentar encontrar os responsáveis pelo crime não permitiram à técnica em enfermagem Maria de Fátima Silva parar sequer para chorar. 

Desde que o corpo do filho Douglas, o DG, foi encontrado num beco de favela no Rio de Janeiro, Fátima transformou-se em ativista e advogada de causas urgentes.

Foi ela quem verificou a extensão dos ferimentos do rapaz no IML, quem divulgou o laudo sobre o tiro, quem recuperou os documentos dele. Quem afirmou existir testemunhas e imagens de que Douglas teria sido "torturado até a morte" por policiais da UPP do Pavão-Pavãozinho, em Copacabana. Quem apontou contradições e questões cruciais da cena do crime – para as quais ninguém esboçou resposta.

Nas últimas 24 horas a vimos o tempo todo em ação, desespero em riste, sem perder um minuto com as próprias lágrimas. Sua pressa é justificável: ela não confia na polícia e sabe, como todos nós, que a Justiça pode ser inalcançável.

Como toda boa mãe, exercita, até diante da morte, o delírio da onipotência: tomou para si a tarefa de reunir supostas provas contra os algozes do sorriso, da juventude e do futuro de Douglas, descrito quase como novo Orfeu carioca. Parece ser esta a sua forma de manter laços com o filho, agora eternamente ausente.

Alguém que represente o poder no Rio de Janeiro teria de ter assegurado a ela o direito de simplesmente sentar e chorar. Alguém para lhe dizer, já na primeira hora: acalme-se e acredite - a missão de investigar e punir é nossa.

No início da noite, uma autoridade finalmente prometeu de viva-voz esclarecimentos rápidos à família da vítima. Sempre ele: o secretário de Segurança, José Mariano Beltrame.

Antes que se diga que ele agiu assim porque DG era conhecido dançarino de programa de TV, é preciso lembrar: foi graças a Beltrame que, em meados de 2011, o Estado entregou aos pais o corpo do menino Juan Moraes, de 11 anos, desovado em um rio, depois de ser alvejado por policiais na favela Danon, na Baixada.

O corpo do pedreiro Amarildo de Souza, torturado e morto em 2013 na UPP da Rocinha, Beltrame não conseguiu encontrar, mas a investigação sob seu comando não deixou pedra sobre pedra.

Dona Fátima, que sepulta hoje o filho, vê semelhanças entre os dois casos.“Sem a comunidade peituda e corajosa, meu filho ia virar outro Amarildo”, afirmou.

As armas dos PMs do Pavão-Pavãozinho foram confiscadas e perícias e testemunhos estão em andamento. Conclusões neste momento são precipitadas. Mas o fato é que a pacificação de Beltrame está, às vésperas da Copa, novamente na berlinda. Com a barba por fazer, o secretário mostrava-se ontem visivelmente abatido. Também cansada, a mãe não segurou mais as emoções ao ver, à noite, Douglas no caixão.

O Rio de Janeiro sepultou Douglas Rafael Silva e Edilson Silva. Dois cidadãos comuns, dois jovens, mortos da maneira mais torpe, da maneira mais inaceitável. E com indícios mais do que robustos de que estes assassinatos foram cometidos por quem deveria proteger o jovem, o trabalhador, a população: a Polícia Militar do Rio de Janeiro.

É evidente que nós queremos uma corporação policial com formação em direitos humanos, com remuneração digna, com qualidade para cumprir sua função. Que não é uma função militar contra um inimigo interno, contra 'forças oponentes', mas é uma função de assegurar não só o direito de ir e vir, de existir, de se manifestar, mas também o direito à dignidade e à vida, e o respeito a cada cidadão independentemente de sua condição social.

Fossem esses Silva uns Albuquerque, uns Cavalcanti, ou uns Alencar, é claro que a repercussão seria infinitamente maior. Mas como são filhos da pobreza - embora um conseguindo com sua arte e criatividade se desenvolver até num programa televisivo com suas habilidades de dançarino, o outro conhecido na comunidade do Pavão-Pavãozinho como 'Mateus Maluquinho' porque estivera inclusive internado por problemas mentais, mas era muito querido pela comunidade, muito amado, prestava pequenos serviços e adotado por uma pessoa generosa que além dos sete filhos biológicos assumiu este rapaz. E ela está, claro, em estado de choque vendo agora o seu corpo tombado e esta situação dramática que provoca evidentemente uma revolta da população e da sociedade.

Então, o problema do Rio e do Brasil é muito mais do Estado, das autoridades públicas - entra as quais nos incluímos - do que da sua população, que vive a desigualdade social, vive toda forma de problemas e estes problemas precisam ser urgentemente superados.

Não vamos ficar pensando em campanha e em reeleição se a gente não tem sensibilidade pra ver o Brasil real, que tá incandescendo. E isso é grave, isso é profundo, isso é quase trágico para o nosso futuro."

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