sábado, 26 de abril de 2014

Santa Diplomacia

Em decisão salomônica, Francisco declara santos João Paulo II e João XXIII, nos últimos 700 anos, dois papas foram canonizados.


A situação lembra aquela do caubói que é atingido no duelo, mas ainda consegue alvejar o oponente antes de tombar — só que em uma versão toda pia e santa. Ao assumir o governo do Vaticano, no ano passado, o papa Francisco encontrou já engatilhada a canonização de seu antecessor João Paulo II. Não teria como fugir a ela, o que criava um problema, porque o polonês representava o projeto de Igreja que o argentino vinha reformar.
Cracóvia está em festa
A solução de Francisco foi desengavetar o empoeirado processo de canonização de um pontífice com significado oposto, João XXIII (foto), para servir de contrapeso. O resultado é que neste domingo, depois de declarar santos apenas dois papas nos últimos 700 anos, a Igreja canonizará de uma vez só mais dois — com legados totalmente distintos.
— Canonizar João XXIII junto com João Paulo II é portenho, é malandro, é brilhante. É pura inteligência pastoral. Significa uma no cravo e outra na ferradura. Alguém mais sem vergonha diria que é jesuítico — define o teólogo Fernando Altemeyer Junior, professor da pós-graduação em Ciência da Religião da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).
No centro da discussão está o Concílio Vaticano II, um dos acontecimentos mais importantes para a Igreja nos últimos cinco séculos. Realizado entre 1962 e 1965 por iniciativa de João XXIII, o concílio arejou e modernizou a instituição. Propôs uma igreja aberta ao diálogo, reformou a liturgia (os padres deixaram de celebrar a missa de costas para os fiéis, para ficar em apenas um exemplo) e determinou que o poder seria compartilhado por todos os bispos, em vez de ficar concentrado nas mãos do Papa.

Essas diretrizes foram refreadas com a chegada de João Paulo II (foto) ao poder, em 1978. Enquanto angariava a simpatia das massas com suas peregrinações planetárias, o polonês adotava uma agenda em muitas dimensões contrária à do concílio. Auxiliado pelo seu braço direitoJoseph Ratzinger, promoveu a centralização do poder em Roma, perseguiu padres e teólogos que não se alinhavam com seu pensamento, engessou a liturgia e adotou uma postura de confronto em temas éticos e morais — um "longo inverno" para a Igreja, nas palavras de Altemeyer, depois da primavera trazida por João XXIII.
Joseph Ratzinger, convertido em papa sob o nome de Bento XVI, deu continuidade a esse legado de João Paulo II e logo lançou o seu PAC, o Plano de Aceleração da Canonização. Enquanto outros processos levam décadas ou séculos para se mover, abreviou prazos e beatificou o antecessor em seis anos. Antes de renunciar, deixou o trem da canonização nos trilhos, em alta velocidade.
— Foi uma acelerada como não se costuma fazer na Igreja. Não tem nem 10 anos que João Paulo II morreu. Se o papa Francisco o canonizasse sozinho, o significado deste momento seria completamente diferente. Representaria reconhecer que ele se reporta ao pontificado de João Paulo II, que é controvertido. Ao canonizar junto João XXIII, Francisco está dizendo que vem na linha de João XXIII, de uma igreja simples, para os pobres — analisa o padre e teólogo José Oscar Beozzo, coordenador do Centro Ecumênico de Serviços à Evangelização e à Educação Popular.
No fundo, é a velha disputa interna entre os chamados conservadores (alinhados com João Paulo II) e progressistas (identificados com João XXIII). Vaticanistas como o americano John Allen Jr viram na solução de Francisco (o argentino lançou mão da prerrogativa de canonizar o papa do concílio sem o milagre que seria necessário) uma estratégia de afagar as duas vertentes e de promover a unidade no seio da Igreja. Mas o episódio também revela do lado de quem Francisco está:
— João Paulo II é santo e não há duvida disso. E João XXIII também é santo. Não existe competição aí. Francisco fez uma boa costura desses dois modos de ver a Igreja e o mundo. Mas tomou partido, porque foi ele quem incluiu o segundo. É uma valorização imediata do Vaticano II e de todas as decisões do concílio, que João Paulo freou e Francisco está acelerando de novo — observa Altemeyer.
Se a inclusão de João XXIII esfriou um pouco o entusiasmo dos admiradores de João Paulo II (os poloneses, principalmente, não conseguiram esconder certa contrariedade), também há observadores para quem João XXIII merecia mais. Seu processo de canonização foi acidentado. Primeiro, esteve atrelado ao de Pio XII, que não foi para a frente por conta de polêmicas sobre a ação da Igreja durante o Holocausto. Quando a beatificação de João XXIII finalmente saiu, no ano 2000, João Paulo II colocou no pacote o papa Pio IX, o papa ultraconservador que convocou o Concílio Vaticano I e reforçou a centralização do governo da Igreja.
— Incautos como eu tiveram de absorver que, ao lado de João XXIII, beatificassem também Pio IX. Essa política de equilíbrio às vezes nos deixa nervosos. Primeiro, colocaram Pio IX para esfriar o entusiasmo com João XXIII. Agora, para não dar tanta ênfase a João Paulo II, João XXIII tem de compartilhar de novo. A mim me dá pena, porque eu achava que ele merecia estar no centro. João XXIII merecia uma canonização só para ele — afirma o frei Luiz Carlos Susin, professor de Teologia da PUCRS.
Menos pompa, mais orações na cerimônia de canonização
Em sintonia com a igreja para os pobres apregoada por Francisco, a cerimônia de canonização dos papas João Paulo II e João XXIII terá a marca da sobriedade. Segundo o Vaticano, será mais austera do que a beatificação do papa polonês, em 2011, uma festança que se estendeu por três dias e custou mais de 1,2 milhão de euros. Agora, o gasto da Igreja deve ser de 500 mil euros.
Na ocasião, realizou-se uma megavigília no Circo Máximo, em Roma. Desta vez, foi anunciada apenas a abertura de 11 igrejas do centro da cidade, na noite deste sábado, para oração.
— O importante é que tenhamos sobriedade, que cheguemos ao essencial — avisou o monsenhor Walter Insero, que participa da organização do evento.
A canonização ocorrerá na manhã de domingo, na Praça de São Pedro. Espera-se que os dois papas do passado sejam celebrados pelos dois papas do presente: além de Francisco, o emérito Bento XVI foi convidado a comparecer. Segundo dados fornecidos pelo Vaticano, confirmaram presença delegações oficiais de 93 países. Comparecerão 24 chefes de Estados e monarcas.
Além das autoridade, centenas de milhares de peregrinos devem acorrer ao Vaticano para a cerimônia. Só da Polônia são aguardados cinco trens, 58 voos e 1,7 mil ônibus.
— Estamos prontos para até um milhão de pessoas — disse o vice-presidente da Obra Romana de Peregrinações, monsenhor Liberio Andreatta.
A anunciada sobriedade é um sinal dos novos tempos trazidos ao Vaticano pelo atual papa. Instantes depois de ser eleito, quando o mestre de cerimônias estendeu-lhe a capa escarlate forrada de peles que costumava ser usada por Bento XVI, Francisco recusou-se a vesti-la, anunciando uma mudança de rumos:
— O carnaval acabou — disse.
A simplicidade da cerimônia contrasta com um notícia que veio a público na semana passada e que provocou irritação em Francisco: o ex-secretário de Estado do Vaticano,Tarcisio Bertone, vai inaugurar nos próximos dias, em Roma, sua nova residência, uma cobertura nababesca de 700 metros quadrados. Para conseguir esse espaço, ele juntou dois apartamentos do Palácio de São Carlos, localizado nas imediações da Casa de Santa Marta, onde Francisco decidiu se alojar em um quarto-e-sala de 70 metros quadrados.
— Francisco está procurando a simplicidade em tudo. Decidir que a cerimônia de canonização vai ser simples é apenas uma continuidade disso. É uma atitude de fundo, um caminho que ele pede que os outros também sigam — diz o professor de Teologia José Oscar Beozzo.





























Fonte: CNBB e Jornal Zero Hora

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