sábado, 26 de abril de 2014

Nonsense das capitais

O Brasil se resume a Rio de Janeiro e São Paulo? 

Por que a comissão organizadora não escolhe outras duas cidades, tão Brasil como essas duas, para nelas realizar os jogos?

Estádio Mané Garrincha, em Brasília, que já está pronto para a Copa do Mundo

Muitas vezes tenho discutido com o Agenor, filósofo das horas vagas depois de ter abandonado o Cabo da Boa Esperança, vindo fixar residência no Brasil. Ele, meu gigantesco amigo, defende a ideia de que é sempre no nonsense que se encontram os melhores sentidos. 

Posso até concordar que, com alguma frequência, isso acontece, mas daí a tomar o fato como verdade universal é coisa que não consigo admitir.

Ele, o Agenor, que conhece o Brasil e o ama como poucos de nós, que aqui nascemos e que, no dizer daquele cronista furioso, o Nelson Rodrigues, temos o complexo de vira-latas, por isso estamos sempre torcendo pelo pior, ele defende algumas ideias estapafúrdias, mas também sugere soluções geniais com alguns traços de nonsense.
Na mídia, a recorrência do assunto já chega a ser cansativa. 
Que o Brasil é um país inseguro e isso vai ficar mais evidente daqui uns poucos dias, quando seremos invadidos por bandos de estrangeiros ávidos por futebol. Alguns deles, é verdade, vêm até aqui pela primeira vez e motivados pela propaganda que fazemos a respeito das nossas mulheres: todas desfrutáveis. Praia e carnaval, esta beleza de país tropical. Mas não tergiversemos: a maioria vem por causa da Copa mesmo.
Em São Paulo e, principalmente, no Rio de Janeiro, a mídia vem trabalhando no sentido de desacreditar o Brasil. São mostrados protestos, desordens, fala-se de assaltos e da incapacidade de nossas polícias para manter em nível razoável a segurança dos cidadãos deste e de outros países.
Pois aí é que entrou o Adamastor no assunto. Ontem me chegou com sobrancelhas erguidas, olhos arregalados, e me disse, Mas como é que ninguém ainda pensou nisso?
Terminei de tomar meu café e o convidei para a varanda, onde fluem melhor os melhores pensamentos.
E ele prosseguiu, com semblante de filosofar. O Brasil se resume a Rio de Janeiro e São Paulo?, ele perguntou sem esperar resposta, que, de óbvia, era desnecessária. Então, ele continuou, por que a comissão organizadora não escolhe outras duas cidades, tão Brasil como essas duas, mas sem as mesmas ameaças à segurança, para nelas realizar os jogos?
O Agenor é assim: para ele não existe absurdo antes que se prove ser absurdo. E eu, que vivo tão preso às coordenadas do Descartes, levei um susto ao descobrir que o nonsense do meu amigo talvez fosse realmente a melhor solução. Pelo menos assim a mídia não teria razão para ficar denegrindo este país em que o Agenor resolveu se fixar.

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