terça-feira, 15 de abril de 2014

Futebol e Cidadania

É mais importante ser cidadão do que torcedor. Por isso é lastimável que o Brasil já tenha perdido a Copa de 2014. Para ele mesmo.

Que o futebol é gostoso de jogar e assistir é afirmativa com a qual deve concordar a grande maioria, talvez a totalidade, dos leitores deste artigo. Mas essa paixão pelo jogo não deve inibir o espírito crítico em relação ao uso que lhe dão muitos políticos, dirigentes e jornalistas. Por exemplo, por interesses diversos eles celebram a Copa do Mundo que vai começar no Brasil em junho e que -simplesmente – e agora o leitor talvez discorde do autor deste texto – não deveria acontecer, ou ao menos não deveria acontecer do jeito que ela foi e está sendo organizada.

Para começo de conversa, sejamos claro, ao contrário do que diz certo discurso patrioteiro, sediar a Copa do Mundo de 2014 não deve ser motivo de orgulho nacional. Depois da Copa de 2002 na Ásia (Coreia-Japão), a seguinte na Europa (Alemanha), a última na África (África do Sul), a de 2014 pelo princípio de rodízio de continentes, que foi estabelecido desde 1930, precisaria acontecer na América. Ora, nenhum -país do continente se dispôs a receber, financiar e organizar o evento. A não ser o Brasil. Por quê? Responder com a paixão nacional pelo futebol seria muito simplista.

Na verdade, confluíram os interesses políticos de dois personagens que, para pôr em prática seus projetos pessoais, manipularam o previsível entusiasmo da população. O então presidente da CBF, Ricardo Teixeira, viu numa Copa bem realizada (do ponto de vista da Fifa…) o trampolim definitivo para assumir a presidência da entidade internacional nas eleições de 2015. O então presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, viu na Copa dois benefícios, em termos amplos mais um instrumento do seu populismo, em termos específicos uma manobra para desviar a atenção da opinião pública e da imprensa do escândalo da compra de votos no Congresso. Não por mera coincidência, apenas dois meses depois de descoberto o chamado Mensalão, o Brasil se propôs como sede para 2014, prometendo a construção de vários novos estádios. Todos eles, garantiu então o governo, sem dinheiro público.

Sete anos depois, o que se vê? Estádios caros e inúteis levantados com dinheiro público em locais que nem sequer participam do Campeonato Nacional e têm torneios estaduais irrelevantes. Mas cujos caciques políticos precisavam ser agraciados pela rede de clientelismos de acordo com a grande praga do “é dando que se recebe”. Para ficar com um exemplo eloquente, o estádio de Brasília custou mais do que o novo Maracanã e depois da Copa receberá o campeonato regional com média de público de mil pessoas! Mau planejamento? Muito pelo contrário... Estádios particulares teriam orçamentos apertados e bem controlados, tornando mais difíceis e menos rendosos os esquemas de corrupção federal, estadual, da CBF e da Fifa. A definição que o jornalista inglês Andrew Jennings deu às manobras da Fifa – Jogo Sujo – pode perfeitamente ser estendida aos seus parceiros desse conjunto bem azeitado de interesses escusos.        

“É com um nó no estômago de medo de um enorme fracasso que se assistirá este evento de sonho”. Foi dessa forma que o editorial de uma das mais importantes revistas especializadas do mundo, France Football, definiu recentemente (nº 3537, 28 de janeiro de 2014) a situação da Copa de 2014. Para explicar por que “o Mundial brasileiro suscita inquietude”, a revista publicou matéria de dez páginas que não alimenta o orgulho nacional. Ela informa que para a Fifa teriam bastado de 8 a 10 estádios dentro das normas, mas o governo brasileiro queria levantar 17 e não aceitou ficar com menos de 12, levando a Copa a custar 33 bilhões de reais a um país cujo orçamento da educação é de 38 bilhões de reais. A revista lembra ainda que o ex-presidente Lula, “fervoroso torcedor do Corinthians, pressionou -bastante -para que não tivesse sucesso o projeto de renovação do Estádio do Morumbi, que teria custado duas vezes menos”. Ela explica aos seus leitores europeus que as grandes empreiteiras brasileiras contam com os jeitinhos (petits arrangements) dos políticos, já que são as principais financiadoras dos partidos. Assim, “os entraves políticos, a corrupção e a alta dos preços tornaram-se fardos insuportáveis” que as autoridades negam com um “otimismo simplório”.

Resultado: num país de muitas carências gastou-se com estádios mais de 8 bilhões de reais. Quantos hospitais, escolas, rodovias, aeroportos e presídios poderiam ter sido construídos, ampliados, reformados? Para recordar um único dado, o estudo sobre educação publicado pelo Fórum Econômico Mundial, em setembro de 2013, apontou que entre 122 países o Brasil ocupa o 88º lugar em geral, o 105º quanto à qualidade do ensino, o 112º em Matemática e Ciências. Um país desses precisa de escolas ou estádios? Não é de estranhar, então, as manifestações populares anti-Copa do Mundo que começaram paralelamente à Copa das Confederações, em junho de 2013. É pena que elas tenham aparecido com anos de atraso, e, percebendo que o desperdício já era irreversível, tenha muitas vezes, de forma equivocada, descambado para a violência.

Mas o atraso do protesto é indicador sociológico interessante, revela a ingenuidade pretensiosa e a cidadania deficiente do brasileiro médio. Ingenuidade, porque a escolha do País como sede da Copa foi entendida como uma festa da qual todos participariam, enquanto de fato apenas uma ínfima parcela da população terá recursos para comprar os caros ingressos e se deslocar para as cidades cujos jogos lhe interessam. Cidadania pobre, porque preferiu a incerteza de ver o País ser hexacampeão mundial jogando em casa à certeza de evitar o elevado custo social dessa tentativa.  

Se é verdade, como afirma o dito popular, que todo povo tem o governo que merece, é sintomático como aquelas duas expressões culturais confluem nas declarações e decisões oficiais. A pretensão ingênua aparece na afirmação de Lula e depois de Dilma Rousseff de que o Brasil vai realizar “a melhor Copa de todos os tempos”, e na do ministro dos Esportes, para quem “temos muita coisa para ensinar ao mundo”. Em abril de 2013, apesar do estouro nos orçamentos e atraso nas obras, a presidente insistiu que “somos um país insuperável no campo e estamos mostrando que somos insuperáveis também fora do campo”. Ora, na melhor das hipóteses as palavras foram inadequadas: se somos insuperáveis no campo não deveríamos ter vencido 5 Copas, e sim 19; se somos insuperáveis fora dele, por que apesar de 7 anos de preparação (mais do que qualquer país já teve) há tanto atraso na conclusão das obras e outras jamais saíram do papel (caso do trem-bala entre Rio e São Paulo)?

O pequeno senso de cidadania da classe política fica ilustrado por dois comportamentos. Primeiro, o alto nível de corrupção, em cujo índice mundial o Brasil ocupa o 72º lugar entre 177 países, o que se estima nos custar incríveis 60 bilhões de reais anuais. Segundo, os gastos exorbitantes para as condições do País: o Brasil dispendeu para a Copa 2014 quatro vezes mais do que a África do Sul para a de 2010, fato ainda mais gritante se lembrarmos que são equiparáveis o Produto Interno Bruto per capita (total de bens e serviços produzidos, dividido pelo número de habitantes) de ambos, 11.900 dólares no nosso caso, 11.100 dólares no do país africano.

Apesar dessas evidências, há uma falsa cidadania – não só dos governantes – que se indigna com facilidade. Quando em março de 2012 o secretário-geral da Fifa afirmou que o Brasil deveria receber “um pontapé na bunda” por conta do atraso no cronograma, muitos brasileiros sentiram-se injustiçados e ofendidos, mas o tempo mostrou que, apesar da expressão deselegante, o dirigente francês tinha razão quanto ao conteúdo. 
Quando há pouco, em fevereiro de 2014, a Adidas lançou duas camisetas com clara conotação -sexual -referentes à Copa no Brasil, o presidente da Embratur repudiou o fato e declarou que “não aceitaremos que a Copa seja usada para o turismo sexual”, fingindo desconhecer que desde o começo de 2013 as prostitutas de Belo Horizonte (e depois de outras cidades-sede) recebem aulas grátis de inglês para melhor acolherem os torcedores estrangeiros... E, que se saiba, as autoridades brasileiras jamais consideraram imitar a decisão inglesa de fechar os bordéis durante a competição, como foi feito nos Jogos Olímpicos de Londres, em 2012.    
 
A intenção do presente artigo não é, evidentemente, opor cidadão e torcedor, pois as duas condições não são excludentes, podem conviver no mesmo indivíduo. Contudo, é preciso reconhecer, é mais importante ser cidadão que torcedor. Um país democrático, justo, culto, rico, pode existir sem torcedores, mas não sem cidadãos. Por isso é lastimável que, independentemente do resultado esportivo, o Brasil já tenha perdido a Copa de 2014. Para ele mesmo.

* Hilário Franco Júnior é professor aposentado da USP, autor entre outros de A Dança dos Deuses - Futebol, sociedade, cultura (Companhia das Letras) e, pela mesma editora, Dando Tratos à Bola, Ensaios sobre futebol (no prelo).

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