segunda-feira, 28 de abril de 2014

Arquibancada Social

Dada a importância do futebol no Brasil, por meio dele se expressam muitos dos dramas, conflitos e contradições nacionais. O doutor Sócrates incentivava o voto nas eleições estaduais de 1982: palco para causas nacionais.

Na propaganda de uma marca de automóveis, veiculada em maio e junho de 2013, o refrão convidava a torcida a ocupar as ruas para vibrar com a Seleção Brasileira de Futebol. A multidão eufórica desfilava em torno de automóveis, símbolo da opção pelo transporte individual em nosso País, implementada desde a década de 1950 e estimulada ainda mais nos últimos anos.

No mês de junho, em diversas cidades brasileiras, manifestantes tomaram as ruas e ousaram ocupar o mesmo espaço hegemonicamente utilizado pelos automóveis. Desfilaram na contramão, atrapalhando o trânsito, e explicitaram ainda mais os entraves à mobilidade urbana, causados, sobretudo, pela falta de investimentos em transportes públicos e pelas opções pelo estímulo ao consumo de carros e por incentivos à instalação de montadoras transnacionais.

Desencadeadas pelo aumento das tarifas das passagens, as manifestações de junho do ano passado ganharam corpo e articularam outras demandas sociais: fim da violência policial, mais verbas para educação e saúde, combate à corrupção e críticas ao sistema político vigente. Manifestações organizadas pela Articulação Nacional dos Comitês Populares da Copa do Mundo também ocuparam ruas e praças nas proximidades dos estádios, onde se disputavam partidas da Copa das Confederações.

Em Brasília, na cerimônia de abertura, a presidenta Dilma foi vaiada, no lado de dentro, por integrantes da classe média confortavelmente instalados nas cadeiras coloridas da arena esportiva. Do lado de fora, foi vaiada por representantes de movimentos populares, que denunciavam o processo de elitização e de exclusão dos setores subalternos dos espaços destinados à assistência das práticas esportivas.

As críticas estampadas em cartazes e gritadas em palavras de ordem denunciaram o projeto tecnocrático que envolveu a realização da Copa das Confederações, da Copa do Mundo e dos Jogos Olímpicos de 2016. Refém da lógica dos megaeventos, a organização não incluiu projetos sociais, não estabeleceu diálogos nem permitiu a participação dos movimentos sociais na elaboração.

O legado de desenvolvimento desses megaeventos, baseado na potencialização turística, na dinamização de serviços e negócios e na melhoria dos transportes públicos das cidades envolvidas, é falacioso diante dos gastos na construção das arenas esportivas e dos resultados pífios em termos de infraestrutura.

A edificação de estádios em cidades sem expressão futebolística está fadada a transformá-los em “elefantes brancos”, cujos custos de manutenção poderão levar à situação vivida hoje pela África do Sul (sede da última Copa do Mundo) e por Portugal (sede da Eurocopa de 2004). O financiamento público das obras por meio de empréstimos subsidiados, renúncia fiscal e até mesmo o custeio direto dos empreendimentos significa enorme transferência de recursos do Estado para empresas privadas.

Além disso, com a modernização da arquitetura dos estádios, em nome do conforto e da segurança, altera-se a gestualidade torcedora. A elitização provocou a exclusão dos setores populares. Os estádios viraram arenas e a torcida virou plateia, que vaia e aplaude. Uma forma de higienização social.

O jogo pelas pontas: à direita e à esquerda

Do ponto de vista da estética das massas, da sua gestualidade e da sua vocalidade, as manifestações e toda a extensa e difusa pauta que se construiu nas ruas brasileiras mimetizaram as expressões das arquibancadas.

“Pula sai do chão contra o aumento do buzão” (ou contra a corrupção) é uma paródia do “Pula sai do chão faz ferver o caldeirão”. “O povo acordou” tem também suas matrizes futebolísticas: “O campeão voltou”. “Sou brasileiro, com muito orgulho, com muito amor...” é o decalque do principal (talvez o único) canto entoado pela torcida brasileira em partidas da Seleção.

Se nos antigos estádios ocorriam disputas entre modalidades do torcer por aqueles que ocupavam gerais, arquibancadas, numeradas, tribunas de honra e outros espaços diferenciados, nas ruas pôde-se observar a expressão de diversos setores sociais e lutas ideológicas bastante explícitas.

À direita, embutida no discurso da ordem, ecoou uma saraivada de slogans ufanistas: “O Brasil é o meu partido”, “O povo unido não precisa de partido”, “Sou brasileiro, com muito orgulho...” Resgate do nacionalismo autoritário particularmente perigoso nesse contexto político e esportivo. Em algumas cidades, ocorreu a intimidação, a queima de bandeiras e a expulsão de militantes de partidos das ruas e avenidas.

Apesar de se valerem das liberdades democráticas para realizar suas manifestações, alguns grupos e indivíduos não demonstravam apreço pela democracia e chegaram a defender a instauração de uma ditadura no País. Na mesma direção, criminalizavam os movimentos sociais, reverberando falas agressivas de setores da imprensa empenhados no ataque sistemático às esquerdas e ao governo federal.

À esquerda, veio à tona o ferino questionamento: “Copa pra quem?”, hoje atualizado pela assertiva “Não vai ter Copa!” Ambos questionando as prioridades sociais dos investimentos públicos e cobrando, de certo modo, coerência ideológica do governo federal capitaneado por um partido de origem popular como o PT.
Ao contrário das manifestações sociais a partir do fim dos anos 1970, as jornadas de junho foram marcadas pela organização descentralizada. Mobilizados por meio de redes sociais, sem lideranças políticas claras, figuras públicas ou entidades tradicionais da sociedade civil revelaram a emergência de uma nova geração, nascida após a ditadura militar.

A ação direta, através de confrontos, depredações e atos de vandalismo, demonstrou o distanciamento das demandas sociais em relação aos canais de representação político-institucionais. Muitas dessas ações foram promovidas por pessoas infiltradas, ligadas a forças conservadoras, com o intuito de provocar mais turbulências políticas para o governo federal.

Também foram praticadas por jovens da periferia das grandes cidades e provenientes dos setores sociais subalternos e da nova classe média gestada, em grande parte, com as políticas públicas dos últimos anos. Talvez como expressão e reação primárias ante as suas precárias condições de vida e a violência corriqueira e estruturante que marca o seu cotidiano.

No entanto, apesar da participação de pequenos partidos políticos de esquerda, a condução das manifestações foi levada por grupos e indivíduos mais ou menos identificados com práticas e ideias autonomistas e anarquistas. De um lado, isso revela o esgotamento do atual sistema político brasileiro e a necessidade de reformas que revitalizem os canais de representação.

De outro, as ações diretas de depredação de patrimônio público e privado e o enfrentamento com as polícias militares promoveram o esvaziamento gradativo das manifestações. No lugar de dezenas de milhares de pessoas, as manifestações do início de 2014 caracterizaram-se pelo pequeno número de integrantes e pelo aguçamento da violência.

O que está em jogo

O Brasil vive hoje intensa disputa política e ideológica, que deve estender-se até o fim de 2014, com a realização das eleições gerais. A anestesia dos movimentos sociais, provocada, em grande parte, pela chegada do PT ao poder em 2003, deu lugar a uma avalanche de reivindicações que retomaram muitas das bandeiras petistas, arriadas nos últimos anos em nome da governabilidade do atual presidencialismo de coalizão.

Setores conservadores articulam-se para a grande peleja a ser disputada no segundo semestre de 2014. Um feroz neolacerdismo toma conta de diversas tribunas da imprensa. O gigante acordou, mas despertaram também os corvos raivosos que espreitam a democracia brasileira. O clima é de decisão de campeonato.

Às vésperas da Copa do Mundo, novas manifestações são esperadas. A agenda esportiva entrelaçou-se às agendas política e social. Dada a importância do futebol na sociedade brasileira, é compreensível que através dele se expressem muitos dos dramas, conflitos e contradições de nosso país.


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