segunda-feira, 28 de abril de 2014

A irracionalidade de amar cães e comer porcos

Como um cientista que estuda as capacidades cognitivas e emocionais de inúmeros animais não-humanos, e como consultor do Projeto Alguém (Someone Project), eu gostaria de comentar a respeito desse tema usando como base, sólida pesquisa científica.
Primeiro, como biólogo, eu não considero que questões sobre comparação de inteligência entre espécies sejam úteis. Organismos individuais fazem o que tem que fazer para perpetuar a sobrevivência da sua espécie. Comparar membros da mesma espécie pode ser útil em estabelecer as formas com as quais indivíduos aprendem habilidades sociais ou a velocidade com as quais eles aprendem diferentes tarefas, mas comparar cães a gatos ou cães a porcos não diz muita coisa. Eu sempre insisto que inteligência é um conceito escorregadio e que não deveria ser usado para avaliar o sofrimento.
Outra razão pela qual comparações entre espécies são relativamente sem sentido, e nos colocam em uma ladeira escorregadia, é porque algumas pessoas afirmam que animais supostamente mais inteligentes sofrem mais do que aqueles supostamente menos inteligentes, e por isso podemos usar os menos inteligentes em toda sorte de procedimentos invasivos ou abusivos. Não há absolutamente nenhum embasamento científico nessa reivindicação, e de fato, pode ser que o oposto seja verdadeiro, mas nós realmente não sabemos.
Lori Marino, fundadora do Centro Kimmela de Defesa Animal coloca muito bem: “A questão não é ranquear esses animais, mas sim reeducar as pessoas sobre quem eles são. Eles são animais muito sofisticados.” Eu enfatizei a palavra “quem” porque esses animais são seres sencientes. “Quem”, não “o quê”. Então, quando eles terminam nos nossos pratos, é uma questão de quem nós comemos, e não o quê nós comemos.
Emocionalmente complexo vs. emocionalmente sofisticado
Em discussões sobre as emoções dos animais, as frases “emocionalmente complexo” e “emocionalmente sofisticado” também nos colocam em uma ladeira escorregadia, porque não há dados que sustentem a afirmação de que cães, por exemplo, sejam emocionalmente mais complexos do que porcos, ou outros animais consumidos como alimento.
Sendo assim, a afirmação de que podemos abater porcos, por exemplo, ao invés de cães, porque cães sofreriam mais, é enganosa e vazia, e não existem dados que sustentem essa afirmação. Todos os mamíferos são seres sencientes que compartilham a mesma arquitetura neural subjacente, e que experimentam um amplo espectro de emoções, incluindo a capacidade de sentir dor e sofrer.
Tudo que alguém tem que fazer é ver a literatura científica para perceber os milhões e milhões de ratos e outros roedores que são usados em incontáveis estudos sobre dor em humanos. Apesar do fato de sabermos que galinhas, camundongos e ratos demonstram empatia e são muito inteligentes e emotivos, eles não são protegidos pelo Ato do Bem-estar Animal (AWA).
Você faria isso com o seu cachorro?
O artigo da Associated Press levanta algumas questões importantes que são dignas de nota. Pesquisas mostram que muitas pessoas que comem carne são de fato preocupadas com o nível de inteligência dos animais constantes do seu planejamento de refeições, então discussões sobre a comparação da inteligência desses animais são de fato importantes.
Também levanta o interesse na questão: porque algumas pessoas têm visões tão radicalmente diferentes acerca dos outros animais (não-humanos)? De fato, dois livros muito interessantes publicados, ambos em 2011, abordam essa questão. O primeiro, intitulado: “Alguns nós amamos, alguns nós odiamos, outros nós comemos: porque é tão difícil raciocinar direito sobre os animais”, de Hal Herzog, e o outro: “Porque amamos cães, comemos porcos e vestimos vacas”, de Melaine Joy.
Respostas a questões como essas vêm sendo procuradas por pesquisadores do campo da antrozoologia (estudo da interação entre pessoas e animais). Eu sempre pergunto às pessoas se elas fariam alguma coisa a um cão que lhe causasse dor e sofrimento intensos e prolongados, tais como os suportados pelos animais da pecuária, e a resposta mais normal é “não”, seguida de surpresa e incredulidade sobre o porquê de eu estar fazendo tal pergunta, em primeiro lugar.
Afirmar que animais são seres inteligentes ou profundamente emocionais não significa “humanizá-los”.
Alguns dos comentários de opositores do Projeto Alguém também requerem alguma discussão. Por exemplo, David Warner do Conselho Nacional de Produtores de Suínos, afirma: “Apesar de animais da pecuária terem algum grau de inteligência, estão tentando humaniza-los em nome de uma agenda vegana: o fim do consumo de carne.” Apesar da busca por um mundo vegetariano ou vegano estar entre os objetivos de muitas pessoas, afirmar que outros animais são inteligentes ou que têm ricas e profundas emoções não é uma tentativa de humanizá-los.
Na verdade, quando prestamos atenção na sólida teoria evolucionária, a saber: a continuidade evolucionária de Charles Darwin, nós vemos que humanos não são os únicos seres inteligentes, emotivos e sencientes. De fato, trata-se de biologia ruim furtar dos animais não-humanos suas capacidades cognitivas e emocionais e nós não estamos inserindo nada de “algo humano” nesses animais, que eles já não tenham.
Condizente com esta conclusão, a Declaração da Consciência de Cambridge, assinada por cientistas mundialmente renomados, atesta que os dados científicos disponíveis, claramente mostram que todos os mamíferos, e alguns outros animais, são seres plenamente conscientes. Está claro que a hora é agora para uma Declaração Universal da Senciência Animal, que envolva as pessoas, e as façam assumir a responsabilidade pelas escolhas que elas fazem ao interagirem com outros animais.
A hora é agora para deixarmos de lado ideias sem evidências e ultrapassadas sobre os animais, e darmos crédito à senciência nas inúmeras formas em que ela é encontrada em outros animais.
Quando a Declaração de Cambridge veio a público, houve muita pompa, champagne e cobertura da mídia. Não há necessidade de toda essa fanfarra para uma Declaração Universal da Senciência Animal. Ela poderia ser uma jornada profunda, pessoal, e inspiradora, a partir dos nossos corações, sem ignorar a forte e crescente base em evidências.
Projeto Alguém busca elevar a consciência sobre quem são os animais usados pela indústria alimentícia, sendo fiel às fronteiras das evidências científicas disponíveis. A forma pela qual nós podemos cumprir nossas obrigações éticas para com esses animais é parar com as fazendas industriais agora mesmo, e permitir que os animais que se encontram nesses locais horríveis tenham uma vida digna. E nós não estaríamos causando fome com isso, existem muitas outras alternativas mais humanas, e à medida em que as pessoas se derem conta de que estão consumindo dor e sofrimento, alimentação de origem não-animal se tornará cada vez mais comum.
Perdoando a nossa desconsideração para com a dor e o sofrimento de outros animais
Em um recente artigo publicado no New York Times, intitulado “Nossa hipocrisia para com os animais”, Nicholas Kristof aborda a questão de quem nós comemos. A sua conclusão é uma boa forma de terminar este artigo. Ele escreve:
“Talvez, em um futuro, quando os nossos descendentes refletirem – incompreensivelmente – sobre o nosso abuso dos animais, eles apreciem o fato de que éramos pessoas boas, decentes e bem intencionadas, e como mostrávamos compaixão pela nossa falta de consciência.”

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