sexta-feira, 28 de março de 2014

O que diria Tom Jobim sobre o Tom Jobim?

São tantas as barbaridades cotidianas que acontecem no Aeroporto Internacional do Rio, cartão postal do Brasil, que fico pensando o que diria o maestro Tom Jobim que foi homenageado dando seu nome para o aeroporto mais caótico do pais de aeroportos caóticos.
Tom uma vez disse: “morar no exterior é bom mas é uma merda; viver no Brasil é uma merda mas é bom”. O que diria agora Tom sobre a “homenagem” de ter batizado o Galeão?
Na cobertura que fiz sobre a chegada do 787 da Ethiopian no Galeão, relatei o descaso que existe com o aeroporto e três leitores ficaram indignados. Nenhum, porém, defendeu o Galeão. Nenhum contestou o que eu disse: que havia inúmeras goteiras (inclusive em cima das cadeiras onde os passageiros em conexão da Ethiopian aguardavam o reembarque), que os banheiros são imundos (em um deles havia vazamento e pobre das mulheres que viajam de sandália ou sapato baixos, sem salto), que a estrutura é precária, que os funcionários são rudes e não têm informações (um segurança desabafou na frente de cerca de 30 jornalistas: “isso está uma bagunça”), que não há lugar para todos se sentarem e que os funcionários da Infraero agem como autoridade que não ouve ninguém. Não vou entrar em detalhes para não expor funcionários.

O que esses leitores indignados rebateram quando eu critiquei o Galeão foi: “e Guarulhos?”. Como se eu estivesse advogando em defesa de Guarulhos. Um aeroporto longe do ideal mas que, depois da concessão, já demonstra melhorias. O mesmo vai acontecer com o Galeão. Depois da concessão, vão realmente cuidar e não apenas tocar o aeroporto. Outro perguntou: e qual o melhor aeroporto? Guarulhos? Mais uma vez meu foco não era esse e sim apontar que é uma vergonha termos um aeroporto assim. Na hora H sobra para os funcionários de limpeza, como se a culpa das goteiras fosse deles, que corriam de um lado para outro. A corda sempre vai arrebentar no lado mais fraco…

O Brasil é pobre na qualidade de aeroportos. Por isso, prefiro os pequenos Santos Dumont e Congonhas, pois em qualquer mudança de portão, andamos menos. Em qualquer emergência, estamos perto de casa. E recentemente receberam melhorias que estão longe de os tornarem perfeitos (basta lembrar a falta de ar condicionado no verão carioca ou os problemas de segurança em Congonhas), mas que serviram de paliativos.

Os defensores do Galeão devem cobrar mudanças e eu, como carioca, quero vê-lo como um dos melhores do mundo. Não adianta rebater críticas dizendo que outros também são ruins. Isso pode servir de consolo, mas não resolve os problemas.

Nas palavras do secretário de Turismo do Rio, Antonio Pedro Figueira de Mello: “o Galeão é uma tragédia”. Nas palavras do segurança do Galeão: “Isso aqui está uma bagunça”. Em minhas palavras: “Os cariocas e os brasileiros merecem aeroportos melhores”.



Essa história não é daquelas que o amigo do amigo me contou. Aconteceu com um parente próximo. Foi ele mesmo quem me contou ontem. É um retrato de nosso país.
Chegava ele com a família dos Estados Unidos no aeroporto do Galeão, recém “privatizado” (o estado ainda detém mais de 60% do capital total), quando bateu aquela vontade de ir ao banheiro. Talvez tenha sido a fantástica comida da American Airlines.
Encaminhava-se para o banheiro, quando um funcionário do aeroporto o interceptou. Com toda a gentileza do mundo, querendo nitidamente ser eficaz, o rapaz perguntou, com essas exatas palavras: “Você vai fazer xixi ou cagar?”
Após o choque inicial, um tanto incrédulo, meu parente perguntou se era mesmo necessário especificar qual seria sua atividade no banheiro. Solícito, o moço disse que sim, e explicou o motivo: “É que estourou a tubulação do banheiro, e só os mictórios estão funcionando. Se for para cagar, tem que entrar naquela fila ali e usar o banheiro de retaguarda do aeroporto”.
Ao mostrar a fila, esse “gentleman” apontou para um grupo de 3 felizardos que aguardavam o esperado momento de aliviar aquele peso do corpo. Podem imaginar a cara que cada um fazia, os legítimos “cagões”, agora conhecidos de boa parte do aeroporto. Meu parente foi lá, aumentar o tamanho da fila, enquanto um único pensamento lhe passava pela cabeça: “Cheguei ao Brasil!”.

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