segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

HIGIENIZAÇÃO SOCIAL

Algumas pessoas e mesmo instituições acreditam que a higienização social é uma estratégia necessária para manter algum controle social visível aos olhos da população residente e para o contingente turístico de uma grande cidade, como é o caso de Salvador. 

Um dos alvos preferenciais dessa higienização, alvo eleito "pelas pessoas de bem", são os usuários de crack em situação de vulnerabilidade, espalhados pelas ruas da metrópole. Essa é uma questão que já está sendo discutida e está longe de ter atingido um ponto consensual. Só que na atual gestão municipal, os chamados "sacizeiros" não são o único alvo.



A Banca de Cordel do Mercado Modelo, ponto turístico e sede da Associação de Cordelistas da Bahia por mais de 30 anos, foi retirada do local sem que a população fosse ampla e devidamente informada sobre o processo. 


Não se sabe precisamente o que levou a extinção desse Ponto de Cultura, talvez na imaginação de alguns, o cordel esteja próximo demais do repente e o repente estando próximo do Rap, "pode significar" movimento de resistência ao discurso oficial. Além disso, no último fim de semana aconteceu o que vem sendo chamado de "o arrastão do Netinho na Favelinha da Pituba", no qual moradores e trabalhadores tiveram seus bares e lava-jatos desmanchados na avenida Magalhães Neto, segundo eles, sem aviso prévio.



O reordenamento urbano é necessário, mas também é necessário que ele seja previamente discutido e consensual entre as pessoas diretamente envolvidas, caso contrário essas pessoas deixam de ser sujeitos e passam a ser objetos da ação de "terceiros institucionais". 


Quando esses sujeitos são tornados objetos, a representação social do que lhes é imposto, como nesses casos, deve ser percebida como higienização social, o que aproxima uma gestão muito mais da barbárie que exclui do que da civilização que inclui. Esse dado talvez não seja claro para os turistas, mas deve sê-lo para os que residem e votam no município.



Higienização ou marginalização, sinceramente, creio que se trata de uma exclusão premeditada.  Premeditada e rapidamente executada para "coincidir" com o projeto de revitalização da orla marítima da cidade, apresentado no mesmo fim de semana. Enquanto isso, o centro histórico que abrange o Pelourinho está totalmente abandonado, inclusive sendo palco para assaltos consecutivos aos turistas gringos, aqueles que trazem Euros e levam a violência como cartão postal da "inclusão" soteropolitana.



Essa assepsia social é característica do modelo social democrata. Não se assustem se, a exemplo de administração anterior de São Paulo, colocarem objetos pontiagudos nos espaços urbanos utilizados como 'cama' por moradores de rua. A preocupação da administração pública vigente é jogar a sujeira debaixo do tapete. E o eleitor 'consumidor' é fisgado pelo discurso construído da "cidade para turista ver". 

Esse modelo tem a ver com o discurso democrata, principalmente em sua vertente pragmática, que mira resultados em curto e médio prazo, sem estar muito antenada com os desdobramentos num longo prazo. Talvez esse pragmatismo até esteja antenado com tais desdobramentos, deixando-os como problemas pendentes para uma gestão que lhe suceda, como herança administrativa.


Texto: Tom Valença (colunista convidado)

Nenhum comentário:

Postar um comentário