sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

A Copa do Mundo perdida

Gol contra mesmo são as obras de mobilidade urbana. As 56 intervenções previstas caíram para 39.



A seleção brasileira de futebol tem boas chances de ganhar a Copa do Mundo. Mas os titulares da política, em termos de conquistas permanentes para a sociedade, o propalado “legado social”, já desperdiçaram uma grande oportunidade.

Fico só no estritamente prometido pelos promotores do evento esportivo, já que iniciativas em educação e saúde, por exemplo, nem no banco de reservas ficaram. Recursos não faltaram, especialmente os públicos. As suntuosas “arenas” reformadas ou erguidas consumiram R$ 8,9 bilhões, dos quais só R$ 133 milhões da iniciativa privada. É a prova, de concreto e aço, de que, no Brasil, quando se quer, se faz. Mesmo os atrasos de praxe são resolvidos rapidamente, com aditivos contratuais. A junção de trabalho operoso, tecnologia de ponta e vontade política tudo realiza. E no padrão que a “mestra Fifa” mandou... O que fazer com os “elefantes brancos” fica para depois.

Não faltaram recursos também para os Centros de Treinamento ofertados às 31 seleções que chegarão aqui até junho. Foram preparados nada menos que 74 estádios e instalações, em cidades tão distantes entre si como Cachoeirinha, no Rio Grande do Sul, e Boa Vista, em Roraima. Muitas delas também longe das sedes onde o torneio será disputado. Todas querendo o “privilégio” de acolher uma delegação estrangeira, com a movimentação que isso traz. Mais da metade ficará ociosa quando a “brazuca” rolar. Mas uma bolada de dinheiro público rolou para 39 desses CTs, num total de R$ 506,2 milhões, segundo dados oficiais.



Gol contra mesmo são as obras de mobilidade urbana. As 56 intervenções viárias e de transporte de massa previstas nas 12 cidades-sede caíram para 39 — das quais apenas meia dúzia está concluída. Seu impacto no dia a dia da população será pequeno. Entre o prometido e o que está sendo entregue há um abismo. É que, ao contrário do destinado aos equipamentos esportivos, os cortes foram de R$ 8,34 bilhões, quase 50% do investimento previsto em 2010. 

Assim, essas iniciativas resumem-se a acessos aos estádios e melhorias das vias nos seus entornos. Em Manaus, o placar das obras viárias não sai do zero, Brasília e Rio só terão uma e Cuiabá, Salvador e Porto Alegre, duas. Resultados frustrantes para quem anunciava verdadeiras “goleadas” na locomoção da população das regiões metropolitanas, de 2014 em diante.
O Brasil fora das quatro linhas não é uma “caixinha de surpresas”: como é de nossa má tradição, faltou o jogo coletivo, o respeito ao público. E, como em um time com setores desarticulados, sobrou distância entre o planejado e o realizado, entre o social de longo prazo e o ganho particular imediato. A Copa da Fifa será um evento ruidoso, agitado e... passageiro. Em matéria de legado, já fomos desclassificados.

Por Chico Alencar (deputado federal - RJ)



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