quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

O último romântico da Fórmula 1: James Hunt


Preste atenção na foto acima. Ela foi tirada instantes após uma das vitórias de James Hunt na temporada de 1976 da Fórmula 1. Repare que o vencedor segura numa mão uma lata de cerveja, e com a outra dá uma relaxante tragada num cigarro. E claro, tendo uma bela garota (nem namorada, muito menos esposa) ao seu lado.

Dá para imaginar essa cena no automobilismo atual?

Claro que não. Hoje, se um esportista de elite é flagrado fumando, a encrenca é enorme. Bebida? Só se for algumas gotas daquele champanhe estourado no pódio. Mulheres? São praticamente todos casados, ou cultivam longos relacionamentos - e se alguém for pego em alguma traição, vai virar notícia nos tablóides por pelo menos uma semana. O que Kimi Raikkonen faz nos dias de hoje é "fichinha" pro que James Hunt fez.


James Hunt não era assim. Em sua época, o que realmente dava uma aura especial aos pilotos não eram os contratos publicitários e as aparições na mídia, mas sim o enorme risco envolvido - a cada temporada de Fórmula 1, em média dois pilotos perdiam a vida. E este inglês loiro, alto, boa-pinta, boêmio e viciado em sexo se comportava como um astro do rock lutando contra os melhores pilotos de sua geração - atletas como Emerson Fittipaldi, Niki Lauda, Jody Scheckter e Ronnie Peterson.


Ele não foi exatamente um rebelde no sentido de quebrar as regras, pois as regras ainda não existiam num esporte novo e radical como a Fórmula 1. Sua transgressão estava na liberdade de assumir que o melhor da vida de piloto não era apenas ganhar, e sim aproveitar os benefícios da vitória, sem limites ou censura. Afinal, de que valia vencer o campeonato se não fosse possível ter uma vida de campeão, gastando dinheiro aos montes, festejando a noite inteira e tendo todas as mulheres aos seus pés? Ou como disse Stirling Moss, o grande piloto britânico dos anos 60: "se você fosse como James Hunt, o que teria feito em seu lugar?".

Numa existência relativamente breve de 45 anos, ele calculou ter transado com cinco mil mulheres. Algumas delas ajudam a embelezar o filme Rush, que estreou mundialmente no dia 13 de setembro. Dirigida por Ron Howard (de Apollo 13, O Código Da Vinci e Uma Mente Brilhante), a produção retrata a disputa entre Hunt e o austríaco Niki Lauda pelo título do Mundial de 1976, vencido pelo inglês na última prova, por apenas um ponto de diferença.

Hunt e Lauda tinham estilos radicalmente opostos. Enquanto Lauda foi provavelmente o mais cerebral e calculista piloto de todos os tempos, sempre reservado e sério, Hunt era um cachorro-louco que se arriscava em todas as provas, independente da situação, e um fanfarrão que fez questão de bordar em seu macacão o lema "sex: breakfast of champions" - precisa de tradução?

Por trás da vida de playboy, ele também tinha seus demônios. Claramente alcóolatra e adepto de outras drogas, jamais passaria num exame de antidoping. O nervosismo antes de cada corrida o fazia sempre vomitar antes de entrar no carro, e sua inteligência emocional no relacionamento com algumas das mulheres mais lindas do planeta era algo próximo do zero.

Os preparativos para a decisão do campeonato daquele ano são uma síntese do estilo de vida selvagem de Hunt. Enquanto seu rival austríaco se isolou em seu castelo junto com a esposa para se concentrar para a última prova, James resolveu passar duas semanas no Japão, onde a corrida seria realizada. Hospedado no Tokyo Hilton junto com o camarada Barry Sheene, então campeão mundial de motovelocidade, ele percebeu que a cada manhã uma leva de aeromoças da British Airways chegava ao local para pernoitar.

Quase não é lembrado seu ato de heroísmo, no acidente em que morreu Ronnie Peterson, quando retirou o piloto sueco do carro ainda em chamas. É importante salientar que na metade do campeonato de 1976, Hunt tinha apenas 26 pontos e Lauda 52 (sem contar os descontos, conforme o Sistema de pontuação da Fórmula 1 da época). O acidente de Lauda em Nürburgring ajudou, deixando o austríaco fora de duas provas e com o desempenho abaixo do normal até o fim da temporada, mas é inegável o bom desempenho de Hunt, que vencendo 6 provas naquele ano, tornou-se campeão mundial.

Depois de deixar as pistas, Hunt se tornou comentarista da televisão inglesa. Durante a transmissão do Grande Prêmio do Japão de 1988, Hunt fez o seguinte comentário sobre Ayrton Senna, que estava na liderança da corrida debaixo de chuva: "A não ser que haja uma interferência de Deus, estamos olhando o novo campeão mundial". Hunt, então, passou a ser lembrado constantemente por essa declaração.

Hunt morreu em 15 de junho de 1993 com 45 anos de idade, de ataque cardíaco em sua casa em Wimbledon, poucas horas depois de propor casamento com Helen Dyson.



James Hunt: O último romântico da Fórmula 1

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