quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Errou feio. Errou rude, Gregório Duvivier (Por Elika Takimoto)

Porta dos Fundos terminou o ano polemizando com o Especial de Natal que brinca com a imagem de Jesus sendo crucificado. Adoro Porta dos Fundos e ri em muitas partes do especial que tem mais de quinze minutos ao contrário de seus outros vídeos bem mais curtos. Sabia que a Igreja e muitos fiéis iriam se colocar contra e, assim como os roteiristas, estava esperando para assistir a discussão do camarote sem contudo, tomar partido de nenhum lado, pois, a despeito de ser atéia achei que, de fato, eles literalmente mexeram sem carinho em uma ferida aberta, a dizer, o furo feito com pregos nas mãos de Cristo. Confesso que não achei a menor graça e percebi que, nesse momento, eles queriam mais agredir do que fazer humor. Posso estar errada, mas essa foi a minha percepção.




O mais inteligente seria, penso eu, se todos os cristãos ficassem calados e não mordessem a isca, tal como fizeram na Jornada Mundial da Juventude contra ateus fundamentalistas que se esforçaram muito para atrapalhar e enfeiar a jornada. Diante das mulheres sem camisa na porta das Igrejas se beijando, os jovens na JMJ passavam reto e deram o que puderam dar de merecido aos “ateus revoltados”: o desprezo. Porta dos Fundos poderia ser muito bem desprezado também. Basta não acessar o link, não abrir o vídeo e não apertar o play. É agredido quem quer se agredir. Simples assim. Qualquer reclamação da Igreja contra o especial de Natal, portanto, seria prejudicial à própria Igreja e fácil de ser rebatida. Os integrantes da Porta dos Fundos estavam esperando a munição dada pelo “inimigo” para usá-la contra ele. A Igreja tentar censurar alguma coisa nessa altura do campeonato é de uma ingenuidade de dar dó. Mas...morderam a isca e Gregório Duvivier prontamente respondeu.

Mas Duvivier errou feio. Errou rude. Em sua coluna no Folha de São Paulo escreveu a resposta tão compartilhada pelas redes sociais e transcrevo aqui parte dela: 

“Vossa Eminência disse em vosso Twitter que o especial de Natal do Porta dos Fundos era de "péssimo mau gosto". Poderia dizer que V. Emmo. cometeu um pleonasmo, pois na palavra "péssimo" já está incluída a palavra "mau", mas vou supor que V. Emmo. tenha "redundado" propositalmente, para fins estilísticos. Entristece-me, pois gostaria que o nosso especial de Natal tivesse agradado a todos (embora o homenageado em questão não tenha agradado).




O que me consola é que não somos os primeiros a termos o gosto julgado mau ou péssimo ou ambos pela vossa Igreja. Na realidade, arrisco-me a dizer que estamos em boa (e vasta) companhia. Entre os numerosos condenados, está um astrônomo de nome tão redundante quanto a vossa expressão.

Como V. Emmo. deve saber, não foi a teoria heliocêntrica que causou a condenação de Galileu Galilei. Copérnico já havia dito que a Terra girava em torno do Sol e a Igreja não se importou. O que provocou a ira papal foi o humor.

Para defender o heliocentrismo, Galileu criou um diálogo fictício entre um personagem sábio, Salviati, e um personagem imbecil, Simplício. O sábio acreditava que a Terra girava ao redor do Sol e o imbecil achava o contrário. O livro foi um sucesso retumbante. E a Igreja vestiu a carapuça do imbecil. Galileu foi obrigado a negar tudo o que havia dito para escapar da fogueira. Negou e ainda assim foi condenado à prisão perpétua.

Giordano Bruno, contemporâneo de Galileu, acreditava que o universo era infinito. Negou-se a se negar. Foi queimado vivo.”

A resposta de Duvivier teve em torno de 15 mil curtidas e quase 10 mil compartilhamentos somente na página da ATEA até hoje e agora que escrevo. Vejam que ironia, Porta dos Fundos que critica a hipocrisia da Igreja e aponta os cristãos como ignorantes que não pensam, na voz de Duvivier, usaram argumentos falsos, inverdades claras e o tiro (cuja munição foi a dada pela própria Igreja, vale lembrar) saiu pela culatra. Tive que sair do camarote do qual assisto tudo e resolvi agitar mais ainda a platéia.

Li o livro de Galileu de capa à capa e posso garantir: de humor o livro não tem nada. Eu que rio de qualquer imbecilidade não achei a menor graça em uma linha sequer. Falando em imbecilidade, chamar Simplício de imbecil é de uma injustiça que despertaria, acho eu, profunda tristeza em Galileu. Simplício representa o pensamento aristotélico e apresenta em seus argumentos a filosofia natural de Aristóteles para o leitor. Chamar Simplício de imbecil é qualificar mal Aristóteles e alto lá!, se Aristóteles é um imbecil somos o que? Duvivier é o que? Os argumentos de Simplício são inteligentíssimos, Gregório. Fala sério!

Quanto ao fato de Copérnico ter dito que a Terra gira em torno do Sol é outro erro crasso. No prefácio do livro de Copérnico, escrito por Osiander, é dito (quase com essas palavras) que o que seria apresentado é um ‘modelo’ matemático apenas, que é claro que a Terra está no centro do Universo e que o Sol gira em torno dela, mas se supusermos que o Sol está no centro, economizaremos muito em papel ao fazer as contas. Podemos, à luz desse ‘modelo’ desprezar todo o arsenal criado por Ptolomeu para prever, por exemplo, um próximo eclipse. O modelo heliocêntrico é mais simples e fácil de trabalhar, mas não representa a Realidade, pois esta, é tal e qual a representada na Bíblia. Assim diz o prefácio e por conta dele, certamente, o livro de Copérnico não provocou a mesma reação do livro de Galileu. Quanto ao que fez Giordano Bruno ir para a fogueira, nem se fala. Duvivier reduziu uma interessantíssima história e fez um desserviço para o filósofo que deve estar se remexendo no túmulo.

Enfim, sou fã de carteirinha do Porta dos Fundos, mais uma vez, ri em muitas partes do Especial de Natal, mas essa resposta deles me deu vergonha alheia e como atéia gostaria de deixar claro que eles, a despeito de me fazerem rir, não me representam.


Por Elika Takimoto (parceira cronista do Contemporâneo).




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