sábado, 23 de novembro de 2013

Não faz sentido chamar petistas de presos políticos

Para o professor de história contemporânea na Universidade Federal Fluminense (UFF) e ex-presidente do PT fluminense, Daniel Aarão Reis, não faz sentido os ex-dirigentes petistas condenados no processo do mensalão se dizerem presos políticos. "Eles estão mais para políticos presos". Fundador do PT no Rio, Aarão deixou o partido em 2005, pouco antes de o escândalo vir à tona.
Os ex-dirigentes petistas presos se dizem presos políticos. Cabe o termo?

Não faz sentido. O termo "preso político" se aplica quando você combate politicamente um governo ou um regime. O José Dirceu e o José Genoino não foram presos porque combateram o regime. Pelo contrário: eles estavam exercendo o poder dentro do governo.
Primeiro o PT decidiu manter distância dos réus do mensalão. Depois do recolhimento na Papuda e dos problemas de saúde de Genoino, o cenário mudou e o partido se manifestou. Como o sr. avalia essa mudança?
Eu não me surpreendi quando o PT não se manifestou. Isso implicaria um risco eleitoral. Foi mais uma evidência do profundo eleitoralismo que foi progressivamente envolvendo o partido. O objetivo é ganhar eleições a qualquer custo, mesmo que isso exija o sacrifício de dirigentes. Eles só se manifestaram agora porque houve exageros na prisão e isso chocou a opinião pública. Agora o PT tem respaldo para protestar. Como explica o fato do Lula ter passado incólume por todo esse processo do mensalão?
As pessoas sabem do envolvimento dele, mas não dão um grande valor a isso. É insano o Lula não estar nesse julgamento. Isso desafia o bom senso. Ele devia se apresentar e assumir sua responsabilidade. Lembremos que esse escândalo estourou vocalizado por um homem de quem o Lula se dizia amigo.
Acredita que José Dirceu, mesmo preso no regime semiaberto, continuará sendo uma referência e uma liderança do PT?
Ele tem futuro no partido. A carreira política dele não está abortada. Não vai recobrar aquele prestígio que tinha antes do escândalo, mas se manterá como um quadro político atuante. Mas de uns tempos para cá, o Dirceu assumiu posições à esquerda da linha geral do PT. A posição de vítima atrai simpatias e mobiliza os fiéis do PT.
Rui Falcão foi reeleito presidente do PT no Processo de Eleição Direta (PED) com 70% dos votos, um recorde. Como o sr. avalia essa vitória?
O PED é algo muito positivo, mas faz muito tempo que esse eleitoralismo do partido refletiu nas suas eleições internas, que têm sido objeto de acusações de fraude e aliciamento de eleitores na forma mais tradicional da política brasileira. Dão camiseta, lanche e transporte. Não há nenhuma liderança petista, por mais conservadora que seja, que não reconheça que o partido se burocratizou em uma velocidade inquietante. Há muitos anos as convenções do PT são formadas por assessores de deputados ou funcionários da máquina partidária. O partido vive um processo interno de esclerosamento. Quando eu era presidente do PT (fluminense), vários dirigentes zonais foram eleitos com votos evidentemente fraudados.
O ex-presidente Lula entrou pela primeira vez de cabeça em uma eleição interna do PT para eleger o Rui Falcão. Por que essa preocupação nesse momento?
O ex-presidente Lula precisa de um partido muito fiel e disciplinado. E isso ele consegue com o Rui Falcão que, aliás, é um aliado histórico do José Dirceu.

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